“O grande objectivo é interagir com as pessoas que vivem em Coração de Jesus”
Coração de Jesus é uma das três freguesias que compõem a cidade de Viseu. A junta promove de 21 a 30 deste mês, a “Semana do Coração com Vida”. O presidente da Junta de Freguesia, Diamantino Santos, a cumprir o primeiro mandato desde Outubro, eleito nas listas do PSD, conversa sobre o que vai acontecer e porquê, ao longo de 10 dias.
Porque decidiu organizar uma festa desta dimensão num ano de crise?
A crise está aí, mas entendemos que, exactamente para combater essa crise precisávamos de ir ao encontro das pessoas e dar-lhe alguma animação. O termos as organizações da freguesia a participar torna esta festa muito barata. Não tem grandes custos para nós e até por aí ficamos muito satisfeitos. É uma semana feita com gente da terra, com os recursos da terra e não vai ser uma semana cara.
Quais são os objectivos da iniciativa?
Numa primeira fase responder a questões a que nos propusemos quando fomos eleitos, que era dar importância às pessoas que vivem na freguesia e também no concelho. O grande objectivo desta manifestação é interagir com as pessoas que vivem em Coração de Jesus e que vivem em Viseu, de forma a que possam ter expressões diversas de arte, de cultura, de desporto e, acima de tudo, que participem, vivenciem, experimentem e estejam connosco.
Acabado de chegar à vida política, sentiu que as pessoas estão afastadas das instituições, como a junta de freguesia, a autarquia ou os partidos?
Os autarcas de freguesia são autarcas de proximidade que já têm essa mais-valia de estar permanentemente em contacto com os cidadãos. A minha forma de fazer política é estar junto das pessoas, perceber os seus anseios, as suas necessidades e o que elas querem de forma a terem uma vida melhor. Naturalmente que não conseguimos satisfazer todas as pessoas, até porque, nós, enquanto autarcas de freguesia, temos diversas limitações, mas numa primeira fase devemos acompanhar os nossos munícipes, ajudá-los e ouvi-los. Tenho essa preocupação permanente de estar junto de quem nos elegeu, e não só, porque hoje sou presidente de todos os munícipes de Coração de Jesus.
Sentiu algum distanciamento?
Em relação à freguesia, não. As pessoas interagem connosco, criámos mecanismos para que coloquem os seus anseios, as suas necessidades e as suas preocupações, e mesmo em relação à forma como estamos a trabalhar com o órgão deliberativo, a Assembleia de Freguesia, temos tido a participação e a colaboração de todos.Há hoje uma grande preocupação de todos nós de estarmos a trabalhar para o mesmo lado e de estarmos permanentemente a ajudar as pessoas.
Que iniciativas destaca no programa da semana “Coração com Vida”?
Todas elas merecem o seu destaque, até porque houve um trabalho voluntário das associações que rapidamente perceberam o que pretendíamos. Dá-me uma enorme satisfação a diversidade que temos na semana. Trabalhámos desde a primeira hora em dar um programa abrangente, diversificado e que atingisse todos os públicos alvo.
A oposição foi dizendo numa das últimas reuniões, que muitas das iniciativas do programa faziam parte do manifesto eleitoral do Partido Socialista. Reconheceu o reparo?
Não me preocupa minimamente. Acho que devemos apanhar todas as boas ideias e positivas para a freguesia. Neste momento, não relevo a questão partidária. Nesta fase, o que me preocupa mais é vestir a camisola da freguesia e faço-o acima de todos os interesses. Se acharmos que é bom para a freguesia, venham de onde vierem, temos que pegar nessas ideias, aproveitá-las e colocá-las à mercê dos nossos cidadãos.
As actividades da festa estão abertas a quem queira participar?
Naturalmente. Nós não cobramos bilhetes a ninguém, temos inclusive algumas manifestações de caris popular onde queremos que todos estejam presentes e ficaríamos muito satisfeitos se sentíssemos que a festa é também para os habitantes das outras freguesias da cidade e até do concelho.
Durante a festa vai ser apresentado o projecto “Coraçõezinhos”. Trata-se de um bolo que estará para surgir no mercado local e que se pretende que seja a imagem de marca da Freguesia. Como surgiu esta ideia e o que pretendem com ela?
Pode ser uma das imagens de marcada da Freguesia, teremos outras para apresentar. A questão do bolo nasceu numa conversa do executivo e achámos que podia ser uma primeira marca. Temos hoje diversos cafés e pastelarias espalhados pela freguesia e achámos que, se fossemos capazes de criar um bolo com algo ligado à freguesia, com preocupações até de saúde.
Um doce sem açúcar?
Por exemplo. É uma das possibilidades. Pode ser uma marca diferenciadora para que as pessoas, quando o consumirem, se lembrem que é um produto feito na Freguesia de Coração de Jesus.
Já tem autor?
Estamos a trabalhar com uma pessoa que pegou no projecto, demonstrou muito interesse.
Pode vir a ser comercializado na cidade?
É nossa vontade que assim seja, a curto prazo.
Durante o evento vão também apresentar o Cartão do Residente.
É também um projecto diferenciador, que visa sobretudo criar uma relação mais estreita e mais profícua entre os nossos habitantes. Inclusive, poderá estar aqui uma forma de ajudarmos também o comércio tradicional. Pretendemos que, com esse cartão, haja uma maior interligação entre as pessoas que aderirem e o comércio sedeado na Freguesia, numa primeira fase e depois, até fora da Freguesia.
É um cartão de descontos?
Visamos isso, mas pode ter outras vantagens.
Vai ter custos para os aderentes?
Estamos a pensar numa primeira fase haver três tipos de cartões.
Há razões particulares para avançarem com uma nova página na internet sobre a Freguesia?
Pela proximidade e, hoje, não podemos descurar que vivemos num mundo virtual em que as novas tecnologias marcam fortemente a relação com as pessoas. O Coração de Jesus é uma Freguesia urbana e sentimos que a forma de comunicar com os nossos munícipes pode passar por aí. Não só na forma de comunicar, mas na forma de agilizar processos. Queremos chegar à possibilidade do munícipe requerer um atestado de residências e outros documentos utilizando a internet e não ter a necessidade de se dirigir aos serviços.
Como vai ser feita a gestão da página da Internet?
Obriga a que a página seja permanentemente actualizada. Também já aderimos às redes sociais e, no espaço de uma semana, várias pessoas tornaram-se nossas amigas no facebook.
Devia ser uma aposta forte de todas as juntas?
Não tenho dúvidas.
Tem algum projecto alternativo às instalações da sede da Junta na Rua Miguel Bombarda?
Projectos e anseios, temos sempre, agora, temos que ser realistas, vivemos num período de grandes dificuldades, as instalações são próprias e esta questão não pode ser resolvida de um momento para o outro.
Que outros projectos imediatos tem para a freguesia?
Estamos em fase de execução de obras – sob a exige municipal – que consideramos muito importantes: na Avenida Alberto Sampaio, na Avenida José Branquinho e adjacentes e no Parque [da cidade] que infelizmente está parado, mas desde 10 de Dezembro que o municípios de Viseu espera uma resposta do Tribunal de Contas e infelizmente essa resposta tarda em chegar. Custa-nos muito ver uma infra-estrutura daquelas [fechada], porque era muito importante que estivesse à disposição dos concidadãos para ser usufruída. Mas há outras obras.
Por exemplo?
Requalificação das Ruas Tenente Manuel Joaquim e Nova da Balsa, duas ruas francamente melhoradas. Quando chegámos reparámos que essa obra não ficaria completa se à volta não fosse requalificado o que chamamos os blocos da Tevisil. Vamos ter uma visita à `Freguesia do responsável pelo pelouro, em que lhes vamos dar conta de alguns projectos que temos em mente e gostaríamos de ver feitos no imediato. Por exemplo, tornar a Freguesia acessível a todos e estamos a falar de cidadãos normais e dos que têm uma deficiência. Queremos começar pelos bairros residenciais, no sentido de eliminar barreiras arquitectónicas.
Já as tem identificadas?
Sim. Queríamos começar pelos espaços públicos.
Apercebeu-se que são mais do que pensava?
Apercebi-me eu e apercebe-se qualquer pessoa. O nosso município aderiu ao projecto nacional das Cidades Acessíveis e, no futuro, todas as obras vão ter essa particularidade de olharem para todos de uma forma inclusive.
O que mais o surpreendeu neste primeiro mandato que está a cumprir?
A abrangência que este trabalho exige. É um trabalho muito aliciante, mas exige muita disponibilidade. Gerimos uma freguesia que é maior que alguns concelhos do distrito de Viseu.
Identificou alguma necessidade particular?
Há um aspecto que merece a nossa atenção, que é o aspecto social. Embora urbana, vivemos numa Freguesia com alguns problemas sociais. Tem pobreza escondida e tem pobreza visível. Tivemos a noção que realmente precisávamos fazer alguma coisa por esta gente e estamos a fazê-lo.
Como?
Temos associações a trabalhar no terreno, a fazer um bom trabalho e o nosso papel é sobretudo coordenar e articular, para que haja um trabalho em rede e todos possam exercer o seu papel no sentido de assegurar o apoio e a valorização social.
O presidente da junta é muitas vezes a primeira entidade a que as pessoas recorrem. Têm chegado muitos pedidos de ajuda?
Bastantes. Há pessoas que recorrem a nós exactamente pela proximidade, porque acham que é mais fácil do que dirigirem-se a instituições muito burocratizadas, muito fechadas, às vezes, com processos físicos inibidores e não permitem que as pessoas estejam à vontade como na junta de freguesia.
O que faz o Conselho de Cidadão da Junta de Freguesia?
Quando criámos o Conselho de Cidadãos tivemos como primeiro objectivo envolver o maior número de pessoas no nosso projecto. É um conjunto de pessoas (100) de bem que está connosco, que têm uma experiência muito grande sobre a vida da freguesia. É um órgão muito abrangente, que tem pessoas novas, menos novas, de ambos os sexos e em permanente diálogo connosco.
O objectivo era alertar a junta para problemas na Freguesia. Tem acontecido isso?
Tem funcionado, mas nós queremos, que este diálogo seja mais institucionalizado e, portanto, queremos fazer reuniões regulares e combinar a eventualidade de ser criada uma comissão com quem possamos reunir mais facilmente. Esta é uma forma participada de as pessoas estarem connosco e é assim que vemos a política de proximidade.
Acha que faz sentido avançar com a fusão de freguesias?
Acho que tem sobretudo que haver uma reorganização. Eu sou um defensor da regionalização e, provavelmente, no futuro será uma necessidade. Em vez de diminuir, se calhar, reforça o poder local. As juntas de freguesia lutam com grandes dificuldades e se não fosse um município como temos, liderado por uma pessoa que gosta mesmo do concelho, estaríamos muito mal, nomeadamente, em termos de infra-estruturas, as pessoas não tinham capacidade para as fazer.
Há quem diga que na cidade não faz sentido haver freguesias, porque são absorvidas pela actividade municipal.
Não concordo. Nós podemos agilizar muitos processos. Por outro lado, temos um conhecimento muito mais pormenorizado.
Faz sentido a cidade de Viseu estar dividida em três juntas?
É uma boa gestão.
Numa futura reorganização das Assembleias Municipais é colocada a hipótese de retirar os presidentes de junta ou, pelo menos, o direito a votarem os orçamentos. O que pensa disso?
Não concordo. O nosso papel é relevante. Nós é que sabemos exactamente quais são as necessidades das freguesias.
Já encarou o encerramento das Finanças Viseu 2 como um caso consumado?
Não me conformo. Trás efeitos perniciosos até para a vida daquela artéria (Rua Alexandre Herculano), há ali muito comércio que se instalou porque estava lá a repartição de Finanças. Mas, tão importante como isso, é perceber se os cidadãos continuam a ser bem servidos.
Tem estado atento à forma como está actualmente a funcionar o serviço, concentrado numa única casa?
Sim e verifico que há um esforço muito grande dos funcionários em dar resposta. Mas a minha principal preocupação na Freguesia é a saída. Esta é uma medida avulsa. Porquê Viseu? a segunda repartição serve 16 freguesias eminentemente rurais. Dificilmente a banda larga, a internet chega em condições às aldeias. Nas aldeias vivem pessoas para quem os meios tecnológicos ainda são uma novidade cara, rara e difícil de utilizar. Vamos pôr toda a gente num edifício, que está numa zona de grande pressão urbanística, com dificuldades de estacionamento. Tenho grandes dúvidas que a qualidade do serviço seja beneficiada. Não me conformo, e mais, custa-me muito que esta ideia tenha nascido de alguém com responsabilidades no próprio serviço de finanças. Custa-me muito aceitar isso.
A Freguesia de Coração de Jesus precisa de novas escolas?
A Escola secundária Alves Martins está a ser requalificada, mas temos duas escolas que mereciam uma intervenção prioritária: a requalificação da escola sede do Agrupamento de Grão Vasco (antigo ciclo preparatório) está num estado lamentável, espero bem que o poder central (Estado) olha para ela, de forma a intervir rapidamente. Depois, a Escola João de Barros (“Amarelinha”) não tem dimensão para os alunos que tem, nem sequer tem um pavilhão, hoje uma estrutura fundamental nas escolas.
E o 1º Ciclo?
Temos três escolas identificadas no perímetro urbano, a Escola da Avenida, a Escola da Balsa e a Escola de Massorim, que foram requalificadas há pouco tempo, no entanto, em relação à Escola da Balsa, onde está uma unidade de surdos, queremos dotar essa infra-estrutura com melhores condições, nomeadamente, para essa classe de surdos que está lá a trabalhar.
É um jovem presidente de junta. O início de mandato ficou marcado pelo abandono de um dos elementos eleitos na sua lista, Carlos Serrano. Porque se desentenderam?
Não foi um desentendimento, foi um processo absolutamente normal. O senhor Carlos Serrano não quis participar na equipa no âmbito das funções que entendemos serem as melhores para eles e tivemos que aceitar o seu pedido de demissão.
Não lhe deram o lugar que tinham prometido de tesoureiro.
Eu não prometi lugares a ninguém na fase da pré-campanha.
A renúncia custou-lhe?
Claro que sim. Os momentos em que trabalhei com o senhor Carlos Serrano, achei-o uma pessoa muito válida, com grande entusiasmo pela freguesia e não foi fácil para mim digerir essa renúncia.
Até pelas palavras feias que trocaram os dois.
Não é verdade, eu não utilizo palavras feias, acaloradas sim. Temos que ajustar o perfil às funções e disso não me desvio, mantenho essa convicção.
Qual era o lugar que queria para Carlos Serrano?
O meu braço direito.

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